quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

Uma Palavrinha Sobre o Oscar


Sir Ridley Scott, caso realmente quisesse ganhar o Oscar, poderia ter encomendado para si um nobre drama sobre o Holocausto ou uma pomposa biografia de Alguém Importante. Em vez disso, em 2015, ele herdou uma ficção científica otimista e bem-humorada concebida por outro cineasta e a tornou um dos filmes-evento mais populares do ano, voltando a cair nas graças do público e da crítica após anos de rejeição nem sempre justificada.

Scott sempre foi um artista colaborativo (a exemplo de Spielberg, Ford, Hitchcock), não um auteur que acumula na própria figura os principais postos criativos (diferente de Chaplin, Bergman, Kubrick). Ainda é visto como um superestimado tarefeiro por alguns, um mero esteta por outros - apesar da sua visionária capacidade de construir mundos imersivos e complexos, além da energia cinética que imprime às narrativas e a predileção por roteiros de carga filosófica (Blade Runner, Prometheus) ou iconoclástica (Êxodo, O Conselheiro do Crime), se fazerem presentes desde o início da carreira, quatro décadas atrás.

Em perfeita sintonia com a adaptação enxuta de Drew Goddard e a cadência precisa de Pietro Scalia, Scott se mostrou jovial e inventivo em Perdido em Marte, ora focando apenas o hercúleo teste de sobrevivência de Matt Damon na tela, ora coordenando todo um numeroso grupo de personagens de apoio em locações diferentes, equilibrando momentos introspectivos de solidão e desespero do protagonista sozinho em solo marciano com o frenesi e a tensão coletivos dos colegas dele em busca de soluções no Planeta Azul.

A AMPAS achou por bem indicar Perdido em Marte em sete categorias, incluindo Filme, Ator e Roteiro. Exceto Direção. Aos 78 anos, revitalizado, reabilitado, explorando um terreno que domina como ninguém, não impressionou seus pares o suficiente para merecer inclusão num rol em que figura Lenny Abrahamson. Em termos de proficiência na encenação e fluidez do storytelling, o nível do trabalho de cada um desproporcional. O primeiro se define pela experiência e refinamento, o segundo pela excessiva modéstia e desprimor. Poderia dizer algo parecido a respeito de Tom McCarthy.

Talvez outro septuagenário até então em decadência, retornando ao gênero que lhe deu fama - George Miller, Mad Max: Estrada da Fúria - tenha absorvido toda a admiração dos votantes inclinados a levar em conta a narrativa do "retorno ao sucesso". Seria demais esperar da AMPAS múltiplos diretores concorrendo por obras de aventura/ação/ficção. 

Uma vitória de Scott no Directors Guild of America seria uma doce "vingança". Do jeito que está, o mestre inglês se junta a Ron Howard (Apollo 13), Ben Affleck (Argo) e Kathryn Bigelow (A Hora Mais Escura) no duvidoso grupo de Ex-Favoritos ao Oscar Ignorados em Direção Cujo Filme Concorre na Categoria Principal.

Que comecem a polir a estatueta honorária para um futuro próximo - Alien: Covenant não motivará a Academia a se redimir perante Scott.

2 comentários:

  1. Todo prêmio ou disputa que depende de notas ou votos secretos como o Oscar, são sempre discutíveis.

    Não existe uma lógica, por este motivo grande atores e diretores jamais venceram. Muitos tiveram de esperar o Oscar Honorário, como vc bem cita que Ridley Scott possa um dos próximos a receber.

    O reconhecimento do público é o mais importante. Uma grande obra ou carreira pode não ser reconhecida de imediato, mas com certeza o tempo fará justiça.

    Abraço

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    1. Sábias palavras, Hugo. Mas o sangue ferve na hora.

      Cumps.

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