domingo, 17 de maio de 2015

SNIPER AMERICANO (Clint Eastwood/2014)


Estava pensando em iniciar o texto com a promessa de separar convicções ideológicas particulares do conteúdo veiculado no filme. Assumir uma postura defensiva, carregando uma bagagem de preconceitos à sessão apenas serve para fechar-se à comunicação almejada pelo artista, que tem direito a uma visão de mundo diferente do espectador. Desnecessária a precaução, afinal. Sniper é uma biografia, não uma romantização comercial de estética atraente como Pearl Harbor ou uma ode sentimental à camaradagem e à integridade dos soldados americanos aos moldes de O Último Herói, Falcão Negro em Perigo e do idealista O Resgate do Soldado Ryan

O Chris Kyle ficcionalizado no roteiro de Jason Hall teve uma doutrinação parental conservadora desde a tenra infância, encorajadora da agressividade física e do culto às armas, além da valorização da autodefesa e disciplina. Adulto, não foi um salto gigantesco ter construído a identidade de um patriota disposto a defender sua pátria voluntariamente. Eventuais acusações de jingoísmo direcionadas a Eastwood e cia. caem por terra diante da transformação sofrida pelo protagonista ao longo de suas campanhas no Iraque. Está tudo gravado e expresso no olhar perturbado e na fisionomia tensa (palmas para Bradley Cooper, em seu melhor trabalho): as dúvidas morais, os efeitos psicológicos do terror, o desconforto da dificuldade de adaptação nos interlúdios civis do serviço militar, o conflito entre o senso de dever profissional e as responsabilidades no papel duplo de marido e pai. 

A despeito das sequências de combate, repletas de tiros e explosões e mortes, é impossível deixar de perceber a serenidade típica de Eastwood, avesso a histrionismos emocionais e perfumarias visuais, nesta história do quase desmoronamento de um homem forte sob a pressão do horror no solo arenoso, ensanguentado do Oriente Médio. Há uma diferença básica entre enfiar goela abaixo a agenda política internacional ou propagandear o poderio bélico de um país de tendências imperialistas e prestar tributo aos feitos de um indivíduo visto como herói pelos pares e familiares. [Info] ★★★

Um comentário:

  1. Perfeito, a questão do patriotismo exacerbado era algo do próprio personagem principal, não uma propaganda cinematográfica pura e simples.

    Abraço

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