terça-feira, 26 de maio de 2015

DUAS OU TRÊS COISAS QUE EU SEI DELA (Jean-Luc Godard/1967)


Com lugar garantido em qualquer lista das obras mais resolutamente pessoais e anticomerciais, Duas ou Três Coisas... define-se antes como um ensaio cinematográfico de cunho filosófico, político e social do que uma narrativa tradicional amoldada a um gênero preestabelecido. 

A trama, mínima, fica em segundo plano diante dos incessantes questionamentos sussurrados pelo narrador (o próprio Godard) e verbalizados pelas figuras a popular a tela (a maioria mulheres) acerca de tópicos diversos, porém relacionados. A impessoalidade fútil do cotidiano consumista, os efeitos colaterais do redesenho habitacional da cidade, o mal-estar moral de viver sob o jugo cultural de uma potência econômica global que defende seus interesses bombardeando outros povos (contexto: Guerra do Vietnã), os flagrantes paralelos entre a escalada social necessária à sobrevivência no sistema capitalista e o toma-lá, dá-cá negocial inerente à prostituição. 

Godard despeja suas inquietações sobre o espectador, instando-o a refletir sobre assuntos reais que se fazem notar por qualquer cidadão consciente. Fácil perceber a contemporaneidade deste exigente experimento em forma e conteúdo. Não é o tipo de recomendação a se fazer a amigos que pedirem por um programinha divertido e ligeiro, mas quem embarcar na proposta do pensador francês e se interessar pelo que está sendo discutido dificilmente ficará entediado. [Info] ★★★

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