quinta-feira, 26 de março de 2015

Defendendo PROMETHEUS


Este filme não tem plot holes.

Ausência de explicação de determinado ponto do enredo não é sinônimo de plot hole, termo empregado para indicar um rombo de lógica no encadeamento dos eventos, quando o posterior não decorre, logicamente, do anterior, apesar de a narrativa exigir ou dar a aparência que sim. Em inglês plot significa trama. Hole, buraco.

Retenção intencional de informações, elementos deixados no ar para livre interpretação, atitudes particulares de personagens à luz de determinada situação não preenchem os requisitos que configuram, em sentido estrito, o alardeado plot hole. Podem ou não sinonimizar escrita preguiçosa, dependendo da natureza e dos objetivos da obra.

Se formos defenestrar Prometheus pelo fato de os realizadores terem se recusado a explicar tintim-por-tintim cada coisa estranha/surpreendente vista na tela ou justificar expositivamente todo ato dos personagens, então devemos, por coerência, reprovar Alien – O Oitavo Passageiro, Solaris, 2001 – Uma Odisseia no Espaço, O Ano Passado em Marienbad, além do corpo de trabalho de David Lynch e Luis Buñuel, por exemplo.

Não é porque cineastas como Christopher Nolan preferem dar vazão à criatividade por meio de uma abordagem didática e esclarecedora do funcionamento interno do universo de seus longas que outras vertentes de expressão artística e formatação narrativa são inválidas. Apenas diferentes.

Pontos controvertidos de Prometheus que tendem a ser confundidos com supostos furos do roteiro:

[spoilers] 1) BIÓLOGO IRRACIONAL. Detratores adoram apontar o dedo para o jeito como o biólogo Milburn brincou sem qualquer vestígio de medo com o Hammerpede (apelido da nova versão do facehugger). Inegável: foi imprudente. Fifield, o geólogo marrento que o acompanhava na ocasião fatídica, se mostrava hesitante e receoso. Ora, Milburn poderia estar em êxtase por ser o primeiro humano da História não só a testemunhar mas também interagir com uma criatura extraterrestre. Pessoas comuns em situações extraordinárias tendem a perder o controle. Seu modo de proceder continua sendo tolo, mas... Furo? Onde? Roteiristas agora têm obrigação de confeccionar gente perfeita, incapaz de errar? Biólogos são insuscetíveis de emoções como euforia e curiosidade?

2) POR QUE A TRIPULAÇÃO ACEITOU VIAJAR AOS CONFINS DO UNIVERSO SEM CONHECER A MISSÃO?
Ganância. Não é um conceito novo. O que as pessoas não fazem por dinheiro e, no caso de uma equipe composta na maior parte por cientistas, em prol do avanço científico? A companhia Weyland (futura Weyland-Yutani da quadrilogia) tinha dinheiro de sobra; não faria sentido inchar a metragem rememorando a vida pregressa de cada um para justificar os motivos de aceitarem essa jornada colossal. Quem se interessaria pelos meandros da assinatura de entrevistas, contratos, negócios, subornos, ameaças etc? Prometheus, bem ou mal, consiste num arrasa-quarteirão do verão americano, não numa minissérie televisiva ou um épico de Lav Diaz, Jacques Rivette, Claude Lanzmann etc.

3) POR QUE DESCARACTERIZAR GUY PEARCE NAQUELA MAQUIAGEM MEDONHA DE VELHO EM VEZ DE CONTRATAR OUTRO ATOR DE IDADE? Max Von Sydow, Hal Holbrook e Christopher Plummer choram. A transformação prostética pode ter ficado questionável, mas a contratação de Pearce faz sentido. Haveria cenas de Peter Weyland na juventude (ou meia idade, pois o australiano tinha 45 anos na época das gravações) que não chegaram em frente às câmeras. Artes conceituais do segmento prematuramente deletado circulam na internet. A campanha viral em vídeos na internet tirou proveito do ator encarnando um Weyland mais novo. Procurem no YouTube, site oficial ou Blu-ray.

4) COMO PETER WEYLAND ACREDITOU NO PALPITE DA DRA. ELIZABETH SHAW BASEADO SOMENTE NAQUELES DESENHOS PRÉ-HISTÓRICOS DA CAVERNA? Dois motivos: fé na crença da jovem e o fato de ter pouco a perder. Ele almejava a imortalidade, estava ancião feito uma figura bíblica, nadava em dinheiro, possuía os meios, a tecnologia e a equipe necessários. Era, sobretudo, um homem poderoso, determinado, propenso a ilusões de grandeza. Por que não arriscar? Se nada encontrasse no local indicado nas pinturas de Shaw, voltaria à Terra contrariado, embora ainda vivo devido à hibernação criogênica. De novo cabe indagar: cadê o furo?

5) COMO O NAMORADO ANTIPÁTICO DA DRA. SHAW PÔDE TIRAR O CAPACETE NUM AMBIENTE EXTRATERRESTRE DESCONHECIDO? ABSURDO! Não é absurdo. É explicado no filme: o traje dos exploradores contêm leitores embutidos que analisam a composição química da atmosfera à qual estão sujeitos. Tal leitor realizou as análises adequadas e garantiu a respirabilidade do ar do local. Holloway confiou no apetrecho que usava e conhecia. Qual o problema? Os Engenheiros de algum jeito tornaram propício à vida aquela seção da formação rochosa cheia de túneis. Espectadores podem supor que tal circunstância nunca se aplicaria na realidade, mas estamos debatendo uma ficção científica especulativa, não um documentário da National Geographic, NASA ou Discovery. Damon Lindelof e Ridley Scott, não Eduardo Coutinho e Frederick Wiseman. Acurácia, realismo, credibilidade – pretensões aqui propositalmente amenizadas, o reverso da moeda de Interestelar ou Gravidade, perto dos quais Prometheus vira uma fantasia. O texto dá conta da situação, explicitamente. Na esfera diegética do filme a explicação tem validade. Só a contesta quem quiser encontrar defeitos valendo-se de comparações descabidas com o mundo fático.

6) COMO PODE SHAW ACABAR DE SOFRER UMA CESARIANA E SAIR CORRENDO DAQUELE JEITO. Repeteco do tipo de implicância descabida do nº5. A resposta está lá, a olhos vistos, captada pela câmera. A Dra. Shaw autoinjeta, no mínimo, umas três doses de anestésico/analgésico em seringas. O mini-hospital instalado no quarto de Vickers, como tudo pertencente à empresa Weyland, era top de linha, state-of-the-art, tecnologia de ponta. O filme transcorre no crepúsculo do século XXI. A Medicina avançou. FC. Qual a importância de se certificar a verossimilhança do bendito medicamento inominado - mera minúcia no contexto geral da situação?  

7) O QUE É AQUELA GOSMA NEGRA? POR QUE AQUELA LULA SAI DA MOCINHA GRÁVIDA? FIFIELD VIROU UM ZUMBI? O QUE HÁ NAQUELAS URNAS? ESSE FILME NOIADO! Perguntas feitas por quem não percebeu que Prometheus se situa no mundo da quadrilogia Alien, cinco décadas antes de O Oitavo Passageiro. Exemplificam o cordão umbilical com a série. Nas palavras de Ridley Scott, “o DNA" do xenomorph está presente em Prometheus. Resumindo: pelo que o filme dá a entender e decerto será desenvolvido na segunda parte (já planejada), a substância negra que encapsula o dom de criar e destruir carrega o material genético do nosso querido babão de mandíbula dupla. Os Engenheiros – os gigantes albinos – a manipulam. Tanto para florescer a vida (conforme ilustra a abertura) quanto para destruí-la (é o que o último Engenheiro despertado planejava fazer com a Terra caso o capitão Janek não tivesse jogado a Prometheus na espaçonave alien no desfecho). Seja em doses cavalares, seja uma gota, acarretam no organismo-hospedeiro os horrores que afligiram Fifield, Holloway, o Engenheiro decapitado e o Engenheiro-mártir.

8) QUE DIABO SÃO AQUELES HOLOGRAMAS? NÃO ENTENDI NADA. FILME ESTÚPIDO! O filme não é estúpido. ‘Sugestivo’ lhe cabe melhor. Quem assiste deve ligar os pontos. Incomum em se tratando de um tentpole de estúdio feito para o consumo em massa. Ridley Scott se consagrou mestre das imagens, do estilo, não das palavras. Prefere aproveitar o potencial de uma premissa sem preocupar-se em fornecer um abecedário para o conforto do público, espelhando O Oitavo Passageiro, que à semelhança desta "pré-quência", mais aludia do que pontificava. Os hologramas exibem os Engenheiros fugindo em pânico de algo num passado remoto. Algo que saiu do controle deles, que não podiam enfrentar. Cadáveres fossilizados de Engenheiros forram o solo da formação cavernosa. Apenas um albino gigante sobreviveu tempo o suficiente para se acomodar na câmara criogênica da espaçonave, encontrada nos dias atuais (do filme) pelo androide xereta David. Ativemos os neurônios: eles bateram em retirada porque foram infectados pela substância negra que manipulavam e que, cerca de 2000 anos depois, levou à mutação e à morte de vários da tripulação da Prometheus. O DNA do xenomorph. A prova? Próximo item.

9) CREDO CRUZ! AQUELA CABEÇA GIGANTE FERMENTADO E EXPLODINDO NO LABORATÓRIO? NADA A VER! A cabeçorra decepada obtida por Shaw e cia. na “sala das urnas” pertence a um dos Engenheiros cuja fuga (milhares de anos atrás) foi memorizada no holograma acionado acidentalmente por David. Do que o infeliz corria não é certo (aguardemos a continuação), mas podemos supor, como mencionado no parágrafo acima, que houve uma infecção generalizada pela líquido negro em outros tempos. Quando o crânio está sendo estudado a bordo da Prometheus, a câmera a enquadra com proximidade, permitindo identificar que a pele apresentava aspecto parecido ao de quando o Engenheiro sacrificial dos créditos iniciais ingeriu a substância e começou a se desintegrar (e os restos mortais a “polinizar” as águas daquela paisagem rochosa estéril), além de lembrar a aparência do moribundo Holloway, namorado de Shaw, depois de ter descido o copo de bebida contaminada com a gosma biológica por David, o duas-caras. Conclusão: inexiste buraco no roteiro, sim, pistas de um enigma que as mentes por trás do projeto não pretendiam escancarar ou, por conseguinte, esgotar neste filme – que, não custa lembrar, foi planejado para catapultar uma nova franquia.

10) VICKERS É BURRA. CORREU EM LINHA RETA EM VEZ DE PERPENDICULAR PARA FUGIR DA ESPAÇONAVE CAINDO. PODE, ARNALDO? Outro comportamento (nem seria apropriado trocar por ‘decisão’ nessa situação de calamidade e risco iminente de morte) infeliz sem ligação com o famigerado plot hole. Shaw teve presença de espírito, alterando sua rota de escape para o lado; Vickers entrou em pânico e cometeu uma burrada que lhe custou a curta, amarga e ressentida existência. Novamente: de onde surgiu a demanda por personagens infalíveis? Lindelof poderia ter reservado uma despedida digna à “irmã” de carne e osso de David, só que a discussão enveredaria pelo terreno do revisionismo, do wishful thinking, de querer alterar em retrospecto uma decisão do roteirista.

Pode-se rejeitar a proposta de Prometheus, julgá-lo demasiadamente obscuro, vago ou confuso, torcer o nariz para os personagens, impacientar-se com o ritmo, ironizar suas ambições temáticas (Homens e Deuses, rebelião da Criatura contra o Criador e a respectiva punição deste àquele, de onde surgimos?, os limites da busca pelo conhecimento).

Liberdade de opinião, diversidade de perspectivas. Normal.

Difícil, no entanto, manter o silêncio diante de objeções equivocadas decorrentes de falta de atenção (ou vontade), sem contar as tentativas de desacreditar o visionarismo coerente de Ridley Scott ao conceber, na companhia inspirada de mentes da estatura de Dan O’Bannon, H.R. Giger e Lindelof, um universo imaginário cujas mitologia e iconografia perduram, influentes e cultuadas.

4 comentários:

  1. Vejo o filme como uma tentativa de recomeçar a franquia, que utilizou ideias dos longas anteriores para criar uma trama que tem uma boa premissa, mas que como você bem detalhou, apresenta vários pontos sem explicação.

    Resultou num divertimento razoável, nada mais que isso.

    Abraço

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  2. Apesar de Ridley Scott estar entrando em um HOLE sem fim nos últimos anos, esse foi o melhor de seus filmes - não entendo pra que dirigir freneticamente um bando de filmes ruins, VIDE aquele horroroso O Conselheiro do Crime - não vejo rombos nesse filme, alias eu adoro ele - deveria ter recebido mais atenção.

    Movies Eldridge
    movieseldridge.blogspot.com.br

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  3. Finalmente alguém com a mesma opinião que eu, obrigado por postar!

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  4. gostei do filme mas considero uma grande falha sim a personagem de charlize theron correr em linha reta, ainda mais sendo uma mulher sagaz e sapiente. isso poderia ter sido contornado (perdão pelo trocadilho) facilmente caso ela tivesse tentado desviar para o lado e o diretor usasse algum artifício como uma pedra onde ela tropeçasse (algo crível que não soasse mumbojumbo).

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