sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

ANTES DO ANOITECER (Julian Schnabel/2000)


A turbulenta existência do poeta cubano Reynaldo Arenas é evocada - o termo "contada" não faz jus à espontaneidade narrativa de Schnabel - por imagens cuja sensibilidade só faz sentido chamar de poética, variando entre lembranças fragmentadas, breves fantasias e imagens de arquivo. A câmera livre e inquieta, a película de textura envelhecida e desbotada, pareada com os sentidos brotados da montagem associativa ilustram o caminho percorrido por Arenas ao longo de 47 anos, tanto literal (episódios reais) quanto figurativamente (vida interior, sentimentos, pensamentos).

Apesar de não pertencer à esfera documental etnográfica, tampouco se limita a um estudo isolado de personagem: as alegrias e as tristezas, a beleza e o horror da Cuba sob o jugo militarizado revolucionário de Castro perfazem o fundo histórico contextualizador. A época, o lugar, o homem - todos dividem as atenções do roteiro. Artistas, homossexuais, dissidentes políticos ficaram sem conhecer a alardeada liberdade prometida pela ideologia anticapitalista. Papel, lápis, caneta, máquina de escrever compunham o arsenal de Arenas contra a perseguição censora, a defesa do seu individualismo criativo, evitando que os desvarios dos comandantes do governo tingissem de rancor o dom de verter em linguagem escrita as impressões sobre o país onde nasceu. 

Cínicos rolarão os olhos, mas este filme de profunda orientação autoral reacende a convicção de que o Cinema faz jus à alcunha de Sétima Arte. [Info] ★★★★★

2 comentários:

  1. É um filme deveras interessante ou ao menos essa é a minha memória de quando o vi no cinema.

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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