quarta-feira, 21 de janeiro de 2015

BOYHOOD - DA INFÂNCIA À JUVENTUDE (Richard Linklater/2014)


Lugar-comum é palavra-chave neste épico minimalista cronicar uma vida absolutamente normal, nada extraordinária. Por ser tão trivial o crescimento de Mason entretém; caso o mundo do garoto fosse demasiado precioso o público ficaria alienado, custando a estabelecer algum ponto de convergência, à parte de episódios e sentimentos universais experimentados por quem já atravessou os anos que constituem essa faixa etária. 

Linklater posiciona o americano médio como objeto de estudo para seu drama observacional da juventude - o que, por ironia, torna o filme excepcional. Não à toa lê-se comentários reclamando que Boyhood carece de enredo, ao protagonista falta personalidade, precisava de um clímax etc. Em termos de estilo, o diretor pratica um despojamento pragmático que nunca encorajaria paralelos com, digamos, a exatidão formalista de Ozu, mas o japonês e o texano - separados geográfica, cultural e temporalmente - compartilham a valorização dos pequenas gestos do cotidiano. Família, amigos, amores (elementos externos) e incertezas, frustrações, sonhos (catalisadores internos) podem acumular tanta eloquência quanto outro contexto de importância aumentada. O campo de batalha da família de Mason não envolve guerras, invasões alienígenas, aventuras impossíveis, barbáries históricas - apenas o lar, a escola, a rua, o carro, o trabalho. 

Duas horas e quarenta minutos que voam leves feito uma brisa, tão despretensiosas quanto perspicazes, distantes da artificialidade de conflitos preordenados em arranca-lágrimas inferiores, ao sabor da maré de anseios e obrigações inerentes à condição de existir nos tempos modernos. [Info] ★★★★

Um comentário:

  1. Ainda não tive chance de conferir, mas está na fila.

    Abraço

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