quinta-feira, 29 de janeiro de 2015

BIRDMAN OU A INESPERADA VIRTUDE DA IGNORÂNCIA (Alejandro G. Iñárritu/2014)


Há algo de tirar o fôlego num filme em que cada elemento é planejado com o máximo de ousadia e sua execução atinge a perfeição. Birdman faz jus ao termo francês 'tour de force'. Em conceito e prática, equivale à realização de um número acrobático sem a garantia de uma rede de proteção. 

Uma comédia sobre um ex-astro hollywoodiano tentando sair do ostracismo ao montar uma peça inspirada em Raymond Chandler na Broadway não demandava, necessariamente, planos-sequência virtuosos, instantes de realismo mágico, cortes mínimos, efeitos especiais pontuais. Para diretores de orientação artística, o cinema transcende a função de contar uma historinha da maneira mais literal e direta possível. A forma serve ao conteúdo, este informa aquela. Mera coincidência Iñárritu focar no suor demandado pelo ato de criar em contraponto à celebrização da mediocridade comercial?

O espalhafato técnico envolvendo fotografia e montagem justifica-se pois viabiliza o florescer da inventividade metalinguística plantada no roteiro, desafiando o vigor performático dos atores e estimulando a capacidade de assimilação do público, imerso na expectativa, no frenesi, na vaidade e no egoísmo a colorir o preparo de um espetáculo teatral, além da inevitável bagagem de problemas pessoais trazida pela equipe. Tanto que as irônicas referências à própria indústria cinematográfica (além de estocadas na reputação não-diegética de Michael Keaton e Edward Norton) podem passar em branco na primeira sessão. [Info] ★★★★★

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