domingo, 14 de dezembro de 2014

O RETORNO DO TALENTOSO RIPLEY (Liliana Cavani/2003)


Esta produção europeia estreou direto em DVD e TV a cabo nos EUA, desprestígio agravado pela ausência do glamour que levou O Talentoso Ripley, de Anthony Minghella, às premiações. Injusto para o filme (um suspense eletrizante sobre o fascínio de mentes criminosas sedutoras) e os potenciais espectadores (que perderiam a chance de redescobrir um personagem não esgotado pelas incursões prévias de Alain Delon, Dennis Hopper ou Matt Damon).

Ripley, agora encarnado por John Malkovich, goza de menos protagonismo do que na versão de 1999, corrompendo um moldureiro em estado precário de saúde e finanças. Os contrastes de consciência dão a tônica do drama: um é movido por autodefesa e egoísmo, alheio a lampejos de moralidade ou remorso; o outro age em consideração ao futuro da família, atormentado por crises internas. Mas pode o matador-aprendiz justificar suas ações com o bem-estar da esposa e do filho? Cabe indagar: haveria uma pulsão primal inconfessável por trás da débil hesitação em aceitar novas ofertas de trabalho sujo?

Elegante, sóbrio, embalado pelas notas hipnóticas de Ennio Morricone, pontuado por um assassinato de trincar os dentes no apertado toalete de um vagão de trem em movimento, O Retorno do Talentoso Ripley penetra nas contradições comportamentais e nos instintos humanos geralmente reprimidos. Cavani evita a autocensura típica de entretenimentos industrializados nos quais o malvado regurgita motivações psicologizadas e o mocinho incorruptível em nenhuma hipótese se identifica com o algoz. [Info] ★★★★

2 comentários:

  1. O original com Alain Delon e a versão com Matt Damon são ótimos filmes.

    Ainda não assisti esta versão com John Malkovich. Eu tinha a impressão de ser um filme fraco, mas seu texto elogiando despertou minha curiosidade.

    Abraço

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    1. Recomendo a crítica de Roger Ebert, que foi a razão de eu ter ido atrás desse filme, que eu também supunha ser tosco e desnecessário.

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