segunda-feira, 3 de novembro de 2014

TEMPORADA DE CAÇA (Paul Schrader/1998)


Paul Schrader é o auteur da autodestruição. Seus personagens curto-circuitam a si mesmos, intoxicados pela fúria (Touro Indomável, Temporada de Caça), solidão (Taxi Driver), idealismo (Mishima), loucura (Memórias de uma Guerra). Buscam transcender as limitações, mas não conseguem. Roteirista de mão cheia, extrai voltagem dramática do agir contra o interesse próprio e da tragédia de não perceber, determinados por idiossincrasias da personalidade.

Neste filme, que inicia calmo e adquire intensidade enquanto evolui, o infeliz a desejar uma melhoria de vida, buscando-a por meio de atos que trazem a infelicidade aos próximos é um xerife de meia idade (Nick Nolte) frustrado, empacado numa vivência íntima e profissional medíocre. Desde a infância ele teve a personalidade afetada pela brutalidade avassaladora do pai (James Coburn), bêbado crônico, violento, machista. Um dueto de falhanço humano.

Schrader faz o público notar a crescente semelhança de Nolte com o detestado genitor. Se a narração em off de Willem Dafoe testa a paciência, a intensidade volcânica dos conflitos entre vítimas e vitimizadores - que a partir de certo ponto começam a se confundir - recompensa o estorvo. Coburn amealhou um Oscar-surpresa em 1999. Compreensível: basta vê-lo sorrindo maliciosamente, alcoolizado, ciente da violência psicológica que inflige com prazer, à custa do bem-estar da família, convencido de que assim devem proceder os homens 'de verdade'. [Info] ★★★★

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