domingo, 2 de novembro de 2014

PROMETHEUS (Ridley Scott/2012)


Criação/destruição; pais/filhos; fé/ciência. Afeito a dicotomias, Prometheus subverte o mito bíblico criacionista. No lugar da amorosa, compreensiva figura de Deus, introduz impassíveis “geneticistas do espaço”, alvas criaturas intergaláticas capazes de engendrar novas formas de vida, fertilizar planetas desertos e… Mudar de ideia, irritados com a prole, procedendo à aniquilação dela. Se indivíduos têm o desenvolvimento afetado pela ausência de amor dos pais indiferentes, o que dizer da Humanidade, vítima do desprezo dos entes superiores dos quais descende?

As sensações provocadas por este herdeiro da mitologia Alien abarcam desde o pavor imediato (frente ao destino cruento reservado às proverbiais buchas-de-canhão) até a desesperança, que vai escalando à medida que se percebe o erro de julgamento da heroína (suposto convite dos deuses conclamando terráqueos a um encontro revela-se uma armadilha traiçoeira). À semelhança de um face hugger, Prometheus espreita o público, envelopando-o numa atmosfera malevolente, então atacando-o de súbito, inoculando generosas doses de inquietação.

Os corredores claustrofóbicos da penumbrosa Nostromo cedem lugar a vastos ambientes sob o céu carregado de um planetoide rochoso, propício ao escopo épico-contemplativo que distingue esta pré-continuação indireta de O Oitavo Passageiro e a contextualiza na contemporaneidade, dominada por arrasa-quarteirões cada vez maiores.

O roteiro compartilha o espírito de exploração e especulação a impelir o time de cientistas liderado por Noomi Rapace. A formatação expedicionária, questionadora implica num déficit de adrenalina, recompensado pelo ganho em mistério e evocação.

A tripulação terráquea paga o preço por se julgar no direito de exigir respostas, feito uma criança petulante admoestada ao questionar as ordens dos pais. Pode-se interpretar o desfecho como uma ode ao ímpeto da busca do saber, que já nos levou a cruzar oceanos e, no futuro, permitirá alcançar as estrelas.

Certas críticas procedem: figuras unidimensionais descartáveis (copilotos da espaçonave), comportamentos contraditórios (o biólogo medroso tocando a minhoca-mutante). Damon Lindelof negligencia relacionamentos de potencial inexplorado (Meredith Vickers e Peter Weyland).

Sementes contendo noções encorpadas o bastante para alimentar pesadelos fazem-se notar já no prólogo. Scott mereceria o rótulo de pretensiosos caso tencionassem acomodar todas as respostas no filme. Em vez disso, oferecem umas, sugerem outras, enquanto encorajam a indagação de questões ulteriores, abertas ao debate. [Info] ★★★★★

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