quarta-feira, 12 de novembro de 2014

O RESGATE DO SOLDADO RYAN (Steven Spielberg/1998)


Spielberg abandona o lirismo de Império do Sol e a elegância austera de A Lista de Schindler para expor a caótica feiura do conflito armado. Emprega imagens drenadas de cor, granuladas, câmera na mão, emulando um caráter documental. O público, guiado num tour infernal, tem os sentidos atacados pela sonoplastia intensa, detalhista, capaz de estremecer a sala com a reprodução de zunidos de balas, tilintar de equipamentos, explosões ensurdecedoras, rangidos ameaçadores de tanques, berros de dor, agonia. Uma bagunça controlada – paradoxo colocado em função da busca por alguma espécie de realismo.

Ocorre que, numa revisão, salta à vista o conservadorismo do roteiro. Entre cada sequência de combate há pausas para a inserção de chavões tradicionais da cartilha hollywoodiana. Soldados trocam confidências, brincam, discutem, recolhem-se em momentos privados, entregam-se a crises de choro. O capitão (Tom Hanks), lacônico, faz mistério sobre o passado. Falam do dever à pátria, enaltecem a lealdade aos irmãos de uniforme etc. Estratégia batida a fim de tridimensionalizar personagens. Cria-se uma barriga que preenche parte considerável dos 169 minutos de duração.

Igualmente incômoda a insistência em verbalizar a problemática: repetidas vezes questiona-se o sentido de arriscar a vida de oito homens no esforço de salvar um. Sublinha-se o nonsense da missão suicida, intimando o resgatado (Matt Damon) a fazer por merecer o sacrifício. Robert Rodat mastiga pontos nodais até desencorajar o prazer de terceiros em chegar a conclusões sozinhos. O esforço de Spielberg em sublinhar a contundência do assunto sofre limitações, ancorado numa base escrita banal, em que as implicações temáticas estagnam na superficialidade.

[Spoiler] O esquematismo do texto de Rodat agrava-se quando volta a atenção ao Cabo Upham (Jeremy Davies), que seria o alterego da plateia. O franzino tradutor assume os papéis de alívio cômico (desajeitado, tímido, alheio a jargões militares, em contraste aos companheiros de temperamento endurecido) e bússola moral (objetando contra atos que julga desumanos, excessivos). Simboliza a inocência perdida e a futilidade do apego a ideais nobres durante o derramamento de sangue. O ataque de covardia paralisante nas escadas, impedindo-o de salvar Mellish (Adam Brody), irrita. Um doce para quem adivinhar se ele pagará o preço da ingenuidade, transformando-se num assassino vingativo ao reencontrar um nazista antes liberado pelo pelotão que reintegra a milícia alemã e alveja Miller. É a deixa para os incautos, manipulados, se espantarem face ao “poder corrompedor da guerra”, na qual equivaleria a um delírio mencionar “coisas decentes a fazer”.

Soldado Ryan enaltece valores caros à sociedade americana, apegada a um histórico belicoso, hino dedicado a defensores caídos da nação. A bandeira nacional tremula pálida ao vento, sob a música solene John Williams. Suor e lágrimas, choque e emoção. Segmentos isolados atingem direto o coração – a matriarca Ryan, à porta de casa, em prantos, desabando prantos na iminência da notícia da perda de três filhos; a lenta morte do médico (Giovanni Ribisi) enquanto clama pela mãe que pouco via na infância.

A pretensão de abordar indagações de ordem filosófico-moral e a incapacidade do incumbido de colocá-las no papel impede o acesso da obra à perfeição. Spielberg, apoiado por colaboradores inestimáveis (Janusz Kaminski, Michael Kahn), logra alcançar um nível formidável de concretização. Cínicos acusaram-no de embalar a decisiva invasão da Normandia no Dia D para consumo fácil nos multiplexes, à semelhança de um parque de diversões. Sensato traçar outra analogia: um passeio num triste memorial de horrores. [Info] ★★★★

Nenhum comentário:

Postar um comentário