domingo, 23 de novembro de 2014

INDOMÁVEL SONHADORA (Behn Zeitlin/2012)


Na mais auspiciosa estreia desde Sam Mendes (Beleza Americana), Behn Zeitlin incorpora em cada milímetro de película o espírito indomável de Hushpuppy (Quvenzhané Wallis), garotinha de seis anos que (sobre)vive numa área paupérrima, quase selvagem, da Louisiana, sul dos EUA.

Sem mãe, morando sozinha num arremedo de casa improvisada, alimentando-se de frango grelhado nos contatos esporádicos com o pai embrutecido (Dwight Henry), Hushpuppy persevera graças à pujança da sua imaginação, pela ligação simbiótica com a natureza que a cerca e, tristemente, pela ignorância em relação à própria miséria e à existência de uma civilização próspera além da comunidade isolada que integra.

Catástrofes naturais (o furacão Katrina), conflitos familiares, fuga, expurgo, perda – desafios serão impostos no caminho da protagonista rumo à maturidade precoce forçada.

A ausência de finesse das imagens dá lugar à espontaneidade e à despretensão de um relato motivado por paixão artística, voltado à resiliência daqueles cuja subsistência provém dos despojos de uma minoria favorecida pelo sistema.

Indomável Sonhadora transmite a impressão de se projetar direto da cabecinha de Hushpuppy, um compartilhamento sem filtros de uma difícil existência, colorida pelo temperamento livre e pela assimilação inventiva de eventos e sensações.

Lágrimas brotam em abundância porque o filme ignora o que empreitadas comerciais acumulam de artificial e formulaico, em prol de um elemento condutor cada vez menos perceptível nesta forma de arte: o talento como janela para uma reveladora visão de mundo. [Info] ★★★★★

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