terça-feira, 18 de novembro de 2014

HALLOWEEN II (Rob Zombie/2009)


Um dos melhores filmes, de posição consolidada entre os mais violentos (desbancando Senhores do Crime), pesados (ombreando Redacted), profundos (no contexto do gênero horror), hipnotizantes (junto de O Silêncio dos Inocentes). Serve de lembrete do fato de haver crianças no mundo real cujo ambiente doméstico faz o lar infernal de Michael Myers lembrar um conto de fadas. Dá protagonismo a vítimas de traumas indizíveis, reduzidas a uma sombra do que outrora foram. Vidas maculadas por um seio familiar degenerado, tornadas opacas pela ausência de calor humano.

Zombie singra um oceano negro de dor. Domina o polo extremo da negatividade, orquestrando mergulhos nos longínquos becos de psiques insalváveis, imergindo a mórbida plateia num torpor simultaneamente incômodo e inebriante de adrenalina, apreensão, medo e incontáveis outras reações primais. O macabro a emanar dos fantasmas da mente distorcida de Myers remonta a um surrealismo horripilante, poesia maldita em imagens pesadelares carregadas de simbolismo.

Sofrer de faz-de-conta nas mãos de Zombie significa acordar para a realidade com a consciência elevada, em alerta, sensibilizado, nervos à flor da pele, íntimo de personagens cujo calvário transcendeu a encenação restrita à tela e afetou o plano fático habitado por quem se fora dela.

A mitologia Myers foi retrabalhada de modo a substituir o arquétipo da personificação do mal puro (the boogeyman) pela humanização do personagem. Perde-se em mistério/suspense, ganha-se em caracterização/dramaticidade. O clássico de 1978 complementa os remakes de 2007-2009, e vice-versa. A simbiose funciona. As diferenças individualizam cada versão, garantindo a coexistência pacífica. Reciprocidade, em vez de exclusividade.

As decisões artísticas de Zombie tiram o fôlego, tamanhos o grau de apuro na execução e a engenhosidade conceitual. O interminável sonho no hospital, as alucinações convulsivas de Laurie Strode, as visões pervertidas do assassino com sua falecida mãe, a precariedade do lar postiço que Laurie divide com outra sobrevivente, o olhar atônito de Brad Dourif exprimindo simultaneamente preocupação, frustração, pesar e culpa. A fotografia soturna, espessa fornece textura à atmosfera de tragédia inescapável. A seleção de faixas licenciadas confere pungência ao jogo de gato-e-rato fraternal de Laurie e Michael. A lista de golpes de mestre continua. [Info] ★★★★★

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