quinta-feira, 27 de novembro de 2014

A HORA MAIS ESCURA (Kathryn Bigelow/2012)


Aguardando solitária numa aeronave militar, Maya (Jessica Chastain) é perguntada aonde deseja ir. A moça não consegue responder. Começa a verter lágrimas, transtornada.

Cabe ao público especular o motivo da reação. Uma hipótese: ela percebeu ter dedicado uma década à caça de Osama Bin Laden – uma missão oficial de trabalho que se degenerou em obsessão, consumindo-a em âmbito pessoal,  levando-a a comprometer a ética e, em última instância, a própria humanidade.

Seria Maya uma personificação da moral americana no decorrer da última década? Impactada pelo 11/9, sedenta de justiça (vingança), sujando mãos e consciência de sangue com o propósito de colocar um fecho emocional ao episódio, materializado no assassinato do terrorista afegão em sua fortaleza domiciliar na calada da noite.

Detratores que acusam Bigelow de triunfalista se equivocam. Não assimilaram o caráter reflexivo do filme, confundindo a inexistência de sermões explícitos contra a tortura com aquiescência imperialista à prática. O texto de Mark Boal ignora a pregação verbal, permitindo que cada um tire conclusões sobre a validade das técnicas interrogatórias e estratégias antiterroristas retratadas. Caso Boal encaixasse uma ideologia panfletária na boca dos personagens, os mesmos críticos objetariam que sua inteligência fora subestimada, fulminando a obra por desprezar a sutileza ou a ambiguidade.

Embora o rótulo de “cinema jornalístico” autoaplicado pelos realizadores transmita demasiada pretensão, a execução de Zero Dark Thirty chega perto de lhe fazer jus: o preço pago pela obtenção de um resultado homicida está gravado na fisionomia do elenco, em cadáveres brutalizados, no impacto seco de atentados súbitos, na precisão inclemente das lentes de Greig Fraser, dos cortes tensos da dupla Goldenberg-Tichenor, no pressão agourenta do acompanhamento musical de Alexandre Desplat.

É a História contemporânea ficcionalizada com urgência em celuloide – uma batata-quente lançada no colo do público via arte-entretenimento. [Info] ★★★★★

2 comentários:

  1. O roteiro escancara a hipocrisia e as mentiras do governo americano, por sinal uma escolha corajosa do roteirista e da diretora Kathryn Bigelow.

    Grande atuação de Jessica Chastain.

    Abraço

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    1. É de lamentar que esse mesmo maldito governo americano tenha criado uma campanha de intimidação contra os autores, que acabou lhes custando vários Oscars.

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