quarta-feira, 1 de outubro de 2014

A ORIGEM (Christopher Nolan/2010)


Inception significa um passo adiante para Nolan, cineasta que prioriza o desenrolar mecânico das tramas, narradas com seriedade, destacamento e temporalidade fragmentada.

Este vertiginoso combo de SF e thriller de roubo preserva os traços identificadores do seu criador, vitalizados por um elemento inédito desabrochado a partir do díptico Batman: coração, empatia para com o fator humano, uma representação mais direta de sentimentos, fazendo por merecer o investimento emocional da plateia. 

De tirar o chapéu a intrincação do enredo, a aparência de originalidade do conceito, o escopo do visionarismo de Nolan - à mostra em cenas de cair o queixo - e a engenhosidade estrutural do relato, que se trifurca entre realidade, flashes de memória e múltiplas camadas de sonhos. Nolan, aqui, não deixa seus personagens à deriva, obscurecidos pela frieza da complexidade técnica ou da experimentação editorial.

Alvo frequente de torcidas de nariz é a exposição, "despropositada" e "cansativa", dos princípios gerais a justificar as premissas rocambolescas do filme. O aspecto professoral detectável em parte dos diálogos não chega a incomodar, por dois motivos: 1) os dados recitados são interessantes, aclarando a magnitude do que está em jogo e 2) integrados com naturalidade ao andar da carruagem. Exemplo: o memorável sonho em Paris, quando Cobb ensina a Ariadne o básico sobre a função dela como “arquiteta”. O blablablá pseudotécnico acompanha imagens capazes de fazer qualquer admirador do fantástico jubilar na poltrona.

A Origem firma-se como um divisor de águas para os (poucos) céticos em relação a Nolan. Ninguém traduz a ilogicidade onírica do mundo dos sonhos para o cinema com a percepção sobrenatural de David Lynch, mas Nolan assume a dianteira ao investigar o custo pessoal da obsessão. [Info] ★★★★★

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