quarta-feira, 17 de setembro de 2014

VELUDO AZUL (David Lynch/1986)


Perverso tanto como sátira à superficialidade do american way of life dos subúrbios quanto na condição de perturbador conto sobre o ingresso na idade adulta e o despertar sexual, o filme evoca uma leitura distorcida de Alice no País das Maravilhas, pontuado por passagens de demência e sadomasoquismo. O mundo neo-noir em cores vulgares onde se os personagens empreendem sua errática jornada comporta um território desconhecido, imprevisível, repleto de surpresas, mesmerizante. Traz, em cada fotograma formatado em tela larga, a assinatura de um artista de visão singular para quem “convenção” designa um conceito alienígena. Em meio à amplitude temática, nota-se um senso de humor pendente ao negro.

Lynch choca pela audácia de imagens que remetem a pesadelos oníricos e pela intensidade palpável do elenco. Dennis Hopper, com sua máscara de oxigênio, aparenta ser capaz de incutir medo até em Hannibal Lecter. Alternando vulnerabilidade física e fúria sexual, Isabella Rossellini desconcerta no papel de uma mãe marcada em seu íntimo por situações degradantes. Dean Stockwell, hilário, irreconhecível sob uma maquiagem que o transmuta no Joel Grey de Cabaret, faz miséria com seus cinco minutos em tela, entoando em playback In Dreams, de Roy Orbinson, canção de letra apropriada para iluminar o corpo de trabalho de Lynch. [Info] ★★★★★

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