terça-feira, 30 de setembro de 2014

MARCAS DA VIOLÊNCIA (David Cronenberg/2005)


Comum ler que Marcas da Violência revela um Cronenberg “acessível”, “comercial”, "aguado". Comparado ao hermetismo de, digamos, Spider, pode lembrar um thriller corriqueiro. Ocorre que, em espírito, preserva a configuração autoral do cineasta canadense, além da qualidade da encenação, distinguindo-o de produções de menor envergadura.

O enredo aborda o redespertar do assassino interior adormecido sob a fachada aparentemente pacata de um pai de família, quando figuras ameaçadoras de um passado oculto, tingido de sangue, retornam de surpresa para tirar satisfações. Mote propício à escalação de intérpretes que aperfeiçoaram a sutileza – Viggo Mortensen navega por todo um espectro de temperamento variando entre afabilidade e letalidade, comunicando as gradações em curtos espaços de tempo.

Um ato de brutalidade pode desencadear inúmeros outros, virar de cabeça para baixo uma comunidade tranquila, desestruturar o seio familiar, tornar alguém irreconhecível. Em suma, estilhaçar o american way of life. O ímpeto de violência está contido nos genes – traço natural, ligado à preservação da espécie, à semelhança do desejo sexual. O diferencial reside na exclusiva racionalidade da raça humana, nem sempre capaz de impedir que esse instinto selvagem seja posto a serviço de monstruosidades, o que é deixado claro desde a premonitória abertura. [Info] ★★★★★

2 comentários:

  1. Um grande filme de Cronenberg, numa ótima parceira com Mortensen.

    Vale destacar também a participação de Ed Harris.

    Abraço

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