quarta-feira, 24 de agosto de 2016

IMAGENS (Robert Altman/1972)

Sinopse: Cathryn é uma mulher à beira do histerismo, que confunde as identidades dos seus amantes, criando uma realidade fantasiosa. Seus temores a levam a um único desejo: destruir o mundo interior que ela construiu.

Altman é reconhecido por comédias dramáticas estruturadas em mosaico, acompanhando vários indivíduos em núcleos paralelos que se interseccionam. Pouco se fala da sua faceta de investigador da psique feminina, exercitada em obras de vanguarda cujo foco se afunila sobre uma única protagonista - ou, no caso de 3 Mulheres, uma dupla. Inusitado notar a influência de Bergman/Persona nesse compartimento específico da carreira de Altman, mas ela é inconfundível (e admitida, conforme prova o making of contido no DVD). 

Para dar vazão à esquizofrenia da mente desequilibrada de Cathryn, Altman associou-se ao diretor de fotografia húngaro Vilmos Zsigmond, criando um claustrofóbico estudo de personagem pontuado por instantes de horror surreal em que visões cotidianas recorrentes adquirem tonalidades ameaçadoras e alucinações ambíguas invadem a realidade, tornando-a incerta. A trilha de John Williams, rica em percussões japonesas, acentua o clima de desorientação. 

O enredo em si tem importância relativa; a proposta de Imagens favorece o sensorial, o associativo, o subjetivo, de maneira ainda mais concentrada do que no já mencionado 3 Mulheres, que obteve a aceitação da crítica que este jamais usufruiu. 

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

DEUS BRANCO (Kornél Mundruczó/2014)

Sinopse: Privilegiando os cães de raça, uma nova lei impõe uma taxa pesada sobre as raças cruzadas. Os donos passam a abandonar seus cães e os refúgios ficam rapidamente superlotados. Lili, 13 anos, luta para proteger o seu cão, Hagen, mas seu pai acaba abandonando o animal nas ruas. Hagen e a sua dona procuram desesperadamente um ao outro, até que Lili perde as esperanças. Lutando para sobreviver, Hagen percebe depressa que nem todo mundo é o melhor amigo do cão. Ele junta-se a um bando de cães errantes.

Desconcertante deparar-se com uma produção húngara que repete o que há de melhor e pior no cinema hollywoodiano. Dentre os elementos indesejáveis, a intrusão de uma trilha musical melodramática e o injustificado vício da câmera-na-mão trêmula, feia de se contemplar. Por outro lado, o desenvolvimento adepto de uma premissa fantástica (cães se rebelando de maneira organizada contra humanos que os maltratam) e a proficiência na execução de sequências de ação/suspense surpreendem quem associa a Hungria somente a Miklós Jancsó. Os que não se importarem com os lugares-comuns e tiverem predisposição favorável à temática anticonformista poderão achar o programa catártico, tanto pela revolta animal quanto pela trama paralela de amadurecimento e rebeldia de uma garota adolescente.

sábado, 20 de agosto de 2016

O DESTINO DO POSEIDON (Ronald Neame/1972)

Sinopse: Um transatlântico de luxo, o S.S. Poseidon, é atingido na véspera de Ano Novo por uma onda gigantesca, fazendo-o virar de cabeça para baixo.

Tirando o óbvio - a tecnologia empregada nos efeitos especiais -, o maior diferencial desta versão original em comparação à refilmagem de 2006 é a proporção entre o tempo dedicado ao pleito dos personagens e as cenas de ação. O arrasa-quarteirão compacto (98 minutos) dirigido por Wolfgang Petersen adere à cartilha de entretenimento montanha-russa, rápido e intenso; já o claustrofóbico épico-catástrofe capitaneado por Neame, de quase duas horas de duração, a todo instante abre espaço à coragem e aos receios do pequeno grupo de sobreviventes. Uma questão de prioridades díspares - espetáculo total x dramaturgia mínima - que alguns enxergarão como sintoma da tendência hollywoodiana de cada vez menos lembrar-se do elemento humano em seus produtos populistas. O elenco oscarizado ajuda a distrair a atenção dos diálogos básicos e do humor bobo, destacando-se Shelley Winters e Red Buttons. 

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

O LOBO ATRÁS DA PORTA (Fernando Coimbra/2014)

Sinopse: Uma criança é raptada. Na delegacia, Sylvia e Bernardo, pais da vítima, e Rosa, a principal suspeita e amante de Bernardo, prestam depoimentos contraditórios que nos levarão aos recantos mais obscuros dos desejos, mentiras, carências e perversidades do relacionamento desses três personagens.

Este filme nacional obviamente não obteve as mesmas centenas de milhões de dólares de bilheteria, nem as múltiplas indicações ao Oscar acumuladas por Atração Fatal quase três décadas atrás, mas ousa ir aonde o thriller sensacionalista de Adrian Lyne jamais poderia. A premissa de ambos apresenta pontos de contato inegáveis, girando em torno de um tórrido caso extraconjugal que acaba saindo do controle do marido infiel. 

Aqui, no entanto, as atenções recaem sobre a amante, à qual o enredo fornece um pano de fundo pessoal que impede sua caracterização seja como mera vítima de um cafajeste, seja como destruidora de lares sem caráter. O Lobo Atrás da Porta define-se pela constituição multifacetada: começa dando ares de whodunit a partir de um sequestro, evolui para um exercício narrativo a la Rashomon de relatos conflitantes sobre um relacionamento de cunho sexual, enfim culminando num perturbador estudo de personagem cujo desfecho tem o potencial de chocar o público mais sensível. 

Um sopro de ar fresco para o espectador que sente o peso da insistência da cinematografia brasileira em obras engajadas de cunho político-social.